sábado, junho 18, 2005

Pensamento

Nasci para um sonho vago, que um dia teimará em se materializar.

Contradições

É fácil perder-me de amores por ti. Quando sorris, o teu mundo agarra-se ao meu olhar. Retomo a sua cor vezes e vezes sem conta e sem fim. Quando me ignoras, nasce o desafio de te reter. És pegada doce no meu caminho, salgada na imensidão da noite só.

Por isso, sinto-te longe e perto. Sinto-te dentro de mim a cada batida do tempo, que parece infinito quando não estás. Quero-te vivo nas minhas memórias recentes, nas páginas do meu álbum a cores. Procuro-te aqui, no baloiço de jardim, que balança sozinho ao sabor do vento.

Quando estás, sou tua. Na ausência, a minha alma pertence-te.

terça-feira, maio 03, 2005

Quietude

Resigno-me à tua vontade. Serei o que designares para minha sentença.
Selarei este contrato com um beijo demorado pela tua pele. Sentir-te-ei uma última vez antes de partires.

Não chorarei quando partires. Sei que seremos livres, ainda que numa eterna ausência recíproca. Não há tempo para despedidas. Sentirei a tua falta.

Lamento, minha concupiscência envolvente. Tu morrerás.

Eu serei imortal.

The body whispered...

quarta-feira, abril 20, 2005

Hiato

Entreolharam-se.
Trocaram palavras de amor silenciosas. Sorriram um para o outro.
Ela acenou-lhe, ao vê-lo afastar-se lentamente. Ele correspondeu.
O amanhã nunca lhe parecera tão distante...

segunda-feira, abril 18, 2005

Definição de amor

Observava aquela miúda há cerca de meia hora. Os seus olhos brilhavam, cintilantes pela luz que entrava pela janela de madeira. Os cabelos loiros chamavam os raios de sol para os seus reflexos, o que lhe dava um ar ainda mais inocente. Mas o que pensaria aquela criança, com o olhar tão perdido no horizonte, de queixo insistentemente enconstado na mão direita?

- Não sei. Pergunto-me porque os meninos lá da escola me olham de forma estranha, quando falo do amor. Sei que amo. Sei que o meu coração bate forte pelo meu pai, pela minha mãe, pelo meu cão, pela minha boneca, pela minha camisola de malha preferida. Sei que o amor existe em mim. Não percebo porque me dizem que sou demasiado nova para amar, para perceber o que é o amor. Porque tenho de esconder que gosto do menino aqui da rua e que gosto de olhar para ele. Porque tenho de fingir que gosto menos dele do que da minha prima Rita, que vi pela primeira e única vez no Natal passado. Porque não posso dizer que amo sem que os crescidos riam, me passem a mão pela cabeça e sussurrem: "Um dia irás perceber...". Será que não posso amar, à minha maneira? À maneira que uma criança ama?Será que, quando crescemos, nos esquecemos que sentíamos com o mesmo coração que temos agora? Esqueceste?

- Não me lembro se me esqueci.

sábado, março 19, 2005

Pequena flor

Olhei para a pequena flor... era branca e pura, como o teu sorriso. O caule verde recorda-me os teus olhos, de cor inconstante como um camaleão. O seu cheiro lembra-me a tua pele, o teu odor inconfundível...
Observo esta pequena flor, que murcha a cada hora que passa, que perde a sua beleza viva para se transformar numa outra, morta. Secará e todas as memórias que me desperta ficarão gravadas na sua cor acastanhada. Dela inspirarei o teu amor.
É apenas uma pequena flor, que perdeu a vida para me fazer sorrir. Por ti...

domingo, fevereiro 27, 2005

Outrora

Naquelas ruínas, a vida é defunta.
Ali, outrora viveram sorrisos, caldeiradas de peixe com papas de milho para almoço de Domingo e xailes de lã. Os miúdos corriam com calções pelo joelho, descalços e com os dedos sujos de broa em forno de lenha e doce caseiro. A avó tricotava em cadeira de balouço, gritava os miúdos para a mesa e a família para o calor da lareira. A enxada e as botas de trabalho descansavam a noite junto à porta de madeira.
Ali, o tempo passou e as pedras ruíram uma por uma. A cadeira de balouço vendida em leilão. A lareira fria no Inverno. A terra por cultivar.
A porta trancada, para sempre.

sábado, janeiro 29, 2005

Tribal

Os tambores rufavam e o som ecoava pelas planícies. Homens, mulheres, crianças, idosos, todos se preparavam para o acontecimento da noite. Dançariam kilapanga até o amanhecer.
As vestes brancas enchiam a visão deste ritual.
As fogueiras afastavam os maus espíritos destes corpos dançantes, tatuados a tinta de um misto de suco de jenipapo com pó de carvão.
Letras eram traçadas no chão, como oferendas aos deuses que os guardava noite e dia.

Longe vive este sonho. Um dia, conhecerei esta realidade...