Sorrir
Tempero o meu sorriso com as especiarias doces que encontrei no meu armário. Poso para o espelho e experimento as sensações da felicidade. Mas a aparência fica emoldurada naquele reflexo, tenho de retomar à minha expressão sensorial. À anterior, concedo a carta de alforria que tanto lhe resisti a dar... Sigo o meu caminho malogrado pelo frio da noite. Aqui, neva; abraço-me e faço amor com a solidão deste momento. Amo o meu espectro, os deuses que me tentam neste ar monoteísta. Saco da minha arma e alvejo estes fantasmas que soltam gargalhadas híbridas, que não receio.
Rasgo os contratos que me prendem às convenções sociais... e, nisto, volto a sorrir e acho o meu destino neste pequeno gesto. Inspiro e saboreio esta nova vontade de viver.
No fundo, não passa do jogo do empurra, onde os sentimentos colidem e contradizem-se à luz da razão. Observo a pedra no chão, bonita e polida, lavada pela chuva peregrina do Estio. Mas, ao agarrá-la, enojo-me com a sua base suja e bichosa.
E eis que me desengano: cavamos camadas na nossa existência, nos que nos rodeiam e, em cada uma delas, descobrimos novas verdades e novas cores afectivas.
Por vezes, não gosto. Mas não deixo de sorrir...
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